No Mate-Papo: as Relações Internacionais e o Mundo do mês de abril, tivemos como entrevistado Thales Augusto Zamberlan Pereira, graduado em Ciências Econômicas e pós-graduando em Economia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A conversa foi pautada pelo tema Mitos nacionais e preconceitos culturais. Como preparação para o Mate-Papo, Thales disponibilizou um texto elaborado especialmente para o encontro. Confira abaixo:
Mitos nacionais. Preconceitos Culturais.[i]
Thales A. Z. Pereira
O debate atual sobre imigrantes não conta uma história de sucesso. É um debate composto de estereótipos, onde locais como a fronteira entre o México e Estados Unidos evocam grades de ferro e policiais usando chapéu de cowboy ou ainda onde o Mar Báltico é palco de cenas em que barcos de pequenas proporções tentam transportar um número excessivo de passageiros.
A formação destes estereótipos impede uma discussão produtiva sobre o tema. A imigração torna-se assim assunto público somente quando somos obrigados a enfrentá-la, quando o outro, distante e abstrato torna-se uma incômoda presença concreta. O Brasil vive justamente este momento, pois a presença recente de imigrantes haitianos marca o início de uma realidade crescente no país, não mais um fenômeno distante.
Como lembra a filósofa Martha Nussbaum[ii], ter conhecimento não é uma garantia de bom comportamento, mas ignorância é quase um atestado de mau comportamento. Ideias simplificadas de traços culturais abundam no mundo e educação é a única forma de nos equiparmos para discutir tais temas, já que o conhecimento nos torna, segunda a autora, verdadeiros “cidadãos do mundo”. Atualmente, escolas e universidades tem esta obrigação: cultivar em seus estudantes a noção de pertencimento em uma sociedade heterogênea, logo, o conhecimento torna-se o primeiro passo para não perpetuar estereótipos.
Migrar é a mais antiga ação contra a pobreza.[iii] Transportar um trabalhador de baixa qualificação do Haiti para os Estados Unidos resulta em um crescimento de 700% quase imediato de seu salário. Nenhum valor relacionado à ajuda humanitária pode gerar tamanho crescimento de renda em tão curto prazo. O incremento do bem estar global, em sentido econômico, com a diminuição de barreiras para o movimento de pessoas é substancial. Estima-se que um aumento de 3% na imigração para países desenvolvidos geraria retornos de U$156 bilhões para a economia global. Atualmente, estes países gastam U$70 bilhões em projetos de assistência a países subdesenvolvidos.
No entanto, esta não é uma questão restrita aos países com alto padrão de vida. O primeiro teste do Brasil em relação a movimentos migratórios no século XXI não gerou bons resultados. Apesar de estarmos a dez anos em solo haitiano com preceito humanitário, atualmente restringimos a entrada de haitianos no país. Criar quotas de entrada para trabalhadores haitianos é perpetuar a intervenção externa neste país. O valor total da ajuda externa que o Haiti recebeu da comunidade internacional em 2008 foi de U$900 milhões. Adicione a esse número eventos como o surto de cólera transportado por soldados nepaleses da Minustah em 2010. No entanto, o envio de remessas de haitianos residentes em outros países foi de U$1.3 bilhão, fruto de uma população com maior nível educacional que consegue se locomover para áreas de maior renda. A proporção da população com educação superior que emigram do Haiti é de 83,6% sendo que dentre estes, 36.5% dos médicos que obtiveram treinamento no país.
Atualmente, para a maioria dos países pobres, remessas excedem o valor de auxílios oficiais para desenvolvimento e investimento de portfólio. A lógica que a fuga de cérebros é prejudicial aos países de baixa renda não resiste aos fatos. Grande parte da receita que é enviada por conterrâneos vem de pessoas que, por terem maior qualificação, conseguem migrar. Existe evidência suficiente para demonstrar que sem a perspectiva de migração, as pessoas subinvestem em sua educação em consequência da oferta limitada de trabalhos qualificados. A pobreza absoluta é uma cadeia, razão porque países muito pobres não possuem grande número de emigrantes. Isso pode ser verificado com o valor das remessas enviadas através do globo, onde a África recebe remessas de U$9.3 bilhões ao ano, América Latina de U$53.3 bilhões, leste asiático de U$47.5 bilhões e sul asiático de U$39.9 bilhões.
Dificultar o movimento de pessoas não resulta apenas no encolhimento da economia global, representa também mais insegurança para aqueles que precisam migrar. Com fronteiras reforçadas, aumenta o preço dos chamados atravessadores, que exploram as pessoas que precisam de assistência para cruzar fronteiras. Sem documentação e com maior vigilância, cresce o número de imigrantes ilegais que não retornam ao país de origem por medo de sofrerem penalizações legais.
Países como os Estados Unidos, que possuem aproximadamente 12 milhões de imigrantes ilegais, sofrem as consequências de uma política não adequada para lidar com a imigração. Grande parte dos empregos de baixa remuneração é ocupado por imigrantes. No início da década de 1990, segundo o Ministério do Trabalho dos EUA, 670.000 trabalhadores rurais dos EUA eram imigrantes, muitos sem documentação. Estes são trabalhos que, com o aumento das restrições com estrangeiros, permanecem desocupados por falta de demanda. Este fenômeno também ocorre com trabalhos qualificados como mostra uma pesquisa realizada pela Associação Industrial de Tecnologia Industrial que constatou que 10% dos trabalhos em TI nos EUA não foram preenchidos devido a restrições de visto, resultando em perdas de U$100 bilhões. Isto, em um país em que imigrantes criaram empresas como Google, Intel, PayPal, eBay e Yahoo. Onde 68% dos estudantes estrangeiros que obtiveram seu doutorado em universidades norte americanas em 2000 continuaram trabalhando no país em 2005.
Se tudo é globalizado, por que não o fator trabalho? Enquanto a importância e o impacto que o livre movimento de pessoas pode ter no mundo não forem compreendidos, as políticas públicas serão voltadas para a criação de problemas e não para a formação de soluções. Nas próximas décadas, o continente Europeu será a região mais afetada pela chamada dependência demográfica, que mede a razão entre a população dependente (crianças e idosos) e a população em idade economicamente ativa. Para que esta dependência não aumente, entre 2000 e 2050, a Europa terá que receber mais de 1.3 bilhão de pessoas. Fomentar a cultura do medo, onde um mundo com fronteiras menos rígidas levaria a hordas de pessoas famintas invadindo ilhas de civilização é um atestado da incapacidade que temos de delegar a outrem a racionalidade que tanto valorizamos em nós mesmos. É replicar os longos debates nas tribunas brasileiras durante o século XIX, que não seria correto libertar os escravos porque estes não estavam prontos para a liberdade. É negar a humanidade através de nossos preconceitos.
A primeira globalização que, entre 1850 e 1914, fez 44 milhões de pessoas cruzarem o Atlântico em busca de novas oportunidades e aumentou o comércio global em aproximadamente dez vezes, é um experimento social que não podemos esquecer. Barreiras contra a mobilidade continuam a proteger privilégios que perpetuam desigualdades. Precisamos fazer nossa escolha sobre como iremos lidar com a crescente presença de imigrantes em nosso país. Iremos continuar a repetir erros que são tão conhecidos ou nos tornaremos, finalmente, cidadãos do mundo?
Recomendações de Leitura.
Jeffrey Williamson; Kevin O’Rourke. Globalization and History. MIT University Press, 2002.
Ian Goldin; Geoffrey Cameron. Exceptional People. How Migration Shaped Our World and Will Define Our Future. Princeton University Press, 2011.
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